Resenha: Documentário Cidades Fantasmas


Primeiramente, estava com saudades de escrever aqui. Mas as coisas andaram difíceis e, bem, vocês sabem, final de semestre, recuperação pós crises de ansiedade etc. Porém, hoje não vim falar das minhas tristezas, mas de uma alegria. Finalmente consegui assistir o Doc de um GRANDE amigo meu (ele não é grande, na verdade é... enfim, deixa assim) Guilherme Soares Zanella. Apesar dos problemas que aconteceram que quase me fizeram não ir assistir consegui vencer o receio e fui! 

O Guilherme é um dos roteiristas de Cidades Fantasmas que venceu a competição brasileira de longas e médias-metragens da 22ª edição do festival É Tudo Verdade em abril. Na época eu não pude ir por motivos de provas na faculdade. O doc foi pro cinema há algumas semanas, mas somente na ultima (essa) que deu pra eu (finalmente) ver.

Informações:
Data de lançamento: 15 de junho de 2017 (1h 10min)
Direção: Tyrell Spencer
Elenco: atores desconhecidos
Gênero Documentário
Nacionalidade Brasil
Avaliação: ★★★★★


O documentário retrata quatro cidades que ficaram abandonadas com o passar do tempo. Deserto chileno, Amazônia brasileira, Andes colombianos e Pampa argentino. Um dos lugares é Fordlândia no Pará, espaço criado por Henry Ford, durante o auge do ciclo da borracha que atualmente está ocupado por pessoas que cuidam da historicidade do lugar.

Humberstone (Chile) abre o doc, o deserto, a narrativa triste e simples. A pobreza nua e crua choca logo de primeira, é impactante. Mal conseguia permanecer sentada na poltrona daquela sala escura. Me causou inquietação. Algo me corroía por dentro como o tempo tratava de corroer as paredes daquelas casas, das vilas, do antigo maquinário. As fotografias antigas dos trabalhadores e de suas famílias retratavam a precaridade da vida naquele lugar tão sem vida. Me recordaram os relatos da infância de meu pai, o passar necessidade, as longas jornadas de trabalho, crianças com uma curta infância. 

Fordlândia (Brasil) do deserto para o meio da mata. Também banhado em precaridade, as fotografias dos trabalhadores ressoava da dos americanos que comandavam a extração de borracha. Os relatos da rigidez do trabalho, a fala arrastada e cansada dos senhores que viveram aquela época. Também da luta que é fazer desse lugar um marco histórico de uma época que só a presença dos americanos fazia do lugar uma vila mágica. As casas com varanda que remetem uma época de ouro pós guerra. Lembro que um senhor se perguntava da bandeira Americana que ficava acima da caixa d'água, ele lembrava com nostalgia dela. 

Armero (Colômbia) a tragédia em Armero me tocou de tal forma que é como se em outra vida estivesse acontecido algo muito parecido comigo. A cidade foi soterrada por lama após a erupção do vulcão Nevado del Ruiz.  Os relatos de mães que perderam seus filhos, o sentimento de abandono, de vazio de uma cidade que era feliz, alegre e viva! Sou suspeita para falar porque tive a honra de conviver um semestre com uma colega da Colômbia (Sara, saudades), e mesmo na tristeza ela se mostrava alegre. O drama de Armero vai muito além da erupção, pois o governo sabia e não lhes disse nada. No ar pairava indignação e uma raiva banhada a lágrimas por entes queridos que jamais serão vistos novamente. A avalanche de lama veio e levou a alegria do lugar e dos seus habitantes. 

Epecuén (Argentina) apesar de ser a cidade que me pareceu menos viva e mais arrasada, Epecuén me tocou de uma forma menos incisiva. Ela era uma cidade resort, alegre e festiva. O lago era famoso pela sua salinidade que fazia as pessoas flutuarem, muitas delas eram curadas pelas qualidades medicinais das águas. Tudo que arrecadavam com o turismo os mantinha no resto do ano, porém quando a seca estava por vir uma barragem se rompeu e inundou a cidade, tirando dela sua graça. Um dos moradores disse que parece que quando a água veio o sol se foi. Entretanto atualmente um senhor mora na cidade, com sua bicicleta e seus cachorros. Alguns o chamam de louco, mas ele me parece ser o louco mais lúcido que vi em toda a minha vida.


Acredito que o documentário mostre a face da insanidade em cada um, envoltos nas memórias do passado, nostalgia e tristeza pela devastação que cada perda os causou. Digo com propriedade, pois sou uma dessas pessoas que se apaixonam por histórias tristes e trágicas. Tanto que sai da sala de cinema embasbacada, lembro que olhei para o meu amigo e ele perguntou "e ai, que achou?" e eu disse pausadamente "U - A -U !!!". Pensei muito em como seria minha crítica, mas vejo que não consigo fazer uma. Me sinto submersa na imensidão que é ter vivenciado esse momento. Vai muito além de prestigiar o trabalho de um amigo.

Foi algo visceral. Gosto de coisas que mexem com as minhas entranhas, mesmo que eu me debata um pouco no início. Guilherme diz que eu não aceito críticas construtivas, e que "é normal isso". Sempre reviro os olhos quando ele diz/escreve isso. Mas, acho que é muito além, é quase uma forma de manter a sanidade num momento de desespero, é, aquele momento de se acomodar na nova posição quando se está sentado no piso duro e gelado. E esse documentário, assisti-lo foi, não sei, como estar horas deitada no piso duro e querer se levantar. Seus ossos e a carne toda dói, as vezes falta força, você fica andando meio duro e desconfortável durante um tempo, mas quando se dá conta do que aconteceu só deseja voltar aquela posição novamente, a de espectador

Em Porto Alegre o filme fica até amanhã em cartaz, corre lá!
Espaço Itaú de Cinema
14:30 e 20:00
Cinebancários 
15:00

Fiquem com o trailer, espero que tenha feito jus ao filme, e é isso! 


6 comentários:

  1. Pelos deuses cara, que histórias! A parte das mães que perderam seus filhos foi meio chocante. Imagina só os tantos de animais que morreram por causa dessas tragédias! Horrível mesmo, mas pelo menos teve pessoas para contar a história neh. Parabéns pra você e pro seu amigo, ótimo documentário! E ótimo tema também! <3

    https://banshuutv.blogspot.com.br/

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    1. Então, é chocante mesmo e acho que esse era o propósito. Obrigada!!

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  2. AI, MEU DEUS, preciso ver esse documentário :c sabe se virá para o Rio?
    eu amo documentários com essa temática, meio que abre os meus olhos para a realidade, sabe.

    p.s.: te indiquei para uma tag!!

    Com amor,
    Bruna Morgan

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    1. Bruna, tava em cartaz no Rio e em SP! Vou te mandar a página do filme!

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  3. Meu Deus!!! Queria muito ver. Que incrível!
    Amo documentários, sério, tu já assistiu "Humano"?
    é muito bom, chorei muito com ele (tem no YouTube).
    Blog M E R A K I

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