Eu sou aquela que tem a força tatuada no peito!


Eu sei que isso não é nenhuma reunião de reabilitação que eu deveria me apresentar e dizer há quantos dias eu estou "limpa", mas acho importante que saibam, que um dia eu estive suja. Estive na lama. E que essa força toda que hoje habita em mim, nem sempre esteve aqui.

Eu era uma garota normal, de uma cidade normal, numa escola normal. Não era popular, tampouco bonita como as populares. Era a garota que ia para a biblioteca ler e sonhar com o meu grande amor ou com uma grande carreira. Tudo estava bem até um grupo de alunos novos entrarem na escola. Eram três irmãos e uma irmã. Eram lindos, populares e atletas. Além de serem novos e a curiosidade de todos. O mais velho andava com seu skate embaixo do braço para lá e para cá. A irmã, um pouco mais nova era do tipo que esnobava as populares, o que a fazia mais popular ainda. O do meio era quieto, fechado poderia muito bem andar em qualquer grupo, rir de suas piadas e saber de todas as fofocas sem ser descoberto. O mais novo ainda estava no fundamental, portanto, era um garotinho bonito e engraçado. 

Estavam consecutivamente no terceiro, segundo e primeiro ano do ensino médio. O menor estava entre o quarto e quinto ano do fundamental. Nessa época eu era do oitavo ano, que é quando você não se encaixa no fundamental e nem no médio. É uma fase difícil por sí só. Mas, quando acontece com você o que aconteceu comigo. Tudo fica absolutamente insuportável.

Foi no dia 11 de maio, eu estava na biblioteca da escola escolhendo livros para ler no final de semana, quando sem querer esbarrei em alguém. Sem ver bem, comecei pedindo desculpas. Quando levantei a cabeça pude ver que era, o garoto novo, o do primeiro ano, aquele que eu não sabia o nome. Ele me encarava sério. Estava com medo de receber um xingão, quando ele abriu um sorriso tímido e me entregou os livros. 

"Meu nome é Matheus, prazer." e eu fiquei piscando e pensando no que eu deveria dizer, então consegui pronunciar "Sabrina". Não sei ao certo se ficamos meia hora ou meio minuto nos olhando. Ele tinha lindos olhos castanhos, meio avermelhados como argila e eu não conseguia parar de olhá-lo. Não lembro bem o que houve depois, só que saímos dali e ficamos conversando sobre literatura e de como eu detestava os clássicos brasileiros. 

Semana após semana nos encontrávamos na biblioteca ou no intervalo, todos percebiam que estávamos gostando um do outro, menos eu. Eu não entendia muito bem de romances, só os lia. Matheus era sempre gentil e atencioso, sorridente, mas contido. Discreto, eu diria. Quando me dei conta do que poderia estar acontecendo entre a gente eu pirei. E ele percebeu a mudança. Fiquei mais insegura com seus toques na minha mão ou no braço. Não conseguia encará-lo. Como saber se ele sentia o mesmo que eu? Eu estava apaixonada! 

No dia dos namorados, todas as meninas que tinham um estavam carregando seus presentes. Alguns mais exagerados que os outros. As populares carregavam uma sacola com pequenos presentes que haviam ganhado. Esbarrei, por casualidade numa criança que dava doces para meninas. Ela me deu um, fiquei tão contente com aquilo. Eu só não esperava pelo que estava por vir. 

Entrei na biblioteca e fui para a minha prateleira favorita, a dos romances estrangeiros. Estava escolhendo se era melhor reler Sense and Sensibility ou O Morro dos Ventos Uivantes. Foi nesse instante em que eu estava imersa nos meus devaneios, que ele cobriu meus olhos e perguntou baixinho se eu sabia quem era. "Matheus?" sussurrei trêmula. Então ele tirou as mãos dos meus olhos e eu me virei. Ele segurava um box dos livros da Austen, não sabia se o ar tinha ido embora por causa do box, dele estar me dando o presente ou só pelo fato de ele estar ali. 

"O que é isso?" perguntei, tola e insegura. "Seu presente" ele disse sério, tentando não rir. "Mas, eu não estou de aniversário!", ele soltou um suspiro desapontado. "Seu presente de dia dos namorados. Eu sei que não somos, mas eu poderia arriscar só se tivesse um bom motivo no caso de você não aceitar o presente por não sermos namorados." Eu não conseguia mais respirar nesse momento. "Então Sabrina, quer ser minha namorada?" a casa caiu, pensei, o que vou dizer para ele? "Eu... eu... eu... sim!". Acho que nunca vi alguém tão feliz quanto Matheus nesse momento. Ele me pegou pela cintura e me abraçou tão apertado que meus pés ficaram no ar quando ele me levantou. Nós nos olhamos muito de perto, suas mãos na minha cintura me erguendo, as minhas em seu pescoço macio. Nós nos beijamos lenta e desajeitadamente, mas foi o melhor (e primeiro) beijo da minha vida

Você que está ouvindo a minha história, até aqui não consegue imaginar o que pode ter acontecido nesse relacionamento de contos de fada, que toda a garota quer, não é mesmo? Bem, estamos chegando lá. 

Três meses se passaram, nossos pais já sabiam do relacionamento. Eu com 14 e ele com 15 anos. Éramos sonhadores e inocentes. Minhas colegas, que até então não falavam muito comigo começaram a se interessar por nós, até que chegaram no assunto sexo. Perguntaram como eu conseguia namorar sem "ter feito" e aqueles blá blá blás todos. Eu sempre dizia que não tinha acontecido e eu não tinha pressa. Comentei com o Matheus sobre o fato e ele me disse que seus irmãos mais velhos haviam o dito a mesma coisa "como não aconteceu?"

Ficamos meio desconcertados com a conversa, tentamos mudar de assunto, mas parecia que os dois estavam se indagando "por que não aconteceu?". Fomos para a casa dele depois da aula, colocamos um desenho animado japonês para assistir no seu quarto. A tarde passava lenta comigo em seus braços assistindo o "anime". Até que o desenho acabou e ficamos naquele silêncio que propicia qualquer sacanagem. Começamos a nos beijar intensamente. Suas mãos trêmulas subiam pela minha perna até a atura dos seios. Ele pôs a mão embaixo da minha blusa. Estava gelada. Foi quando eu pedi para ele parar, e gentilmente ele tirou a mão e me deu um beijo na testa. Ele estava excitado e disse que iria ao banheiro lavar o rosto. Esperei tensa no quarto. Foi nesse instante de pensamentos furtivos que tudo aconteceu. 

Seus irmãos chegaram fedendo a álcool em casa, o encontraram indo ao banheiro com a ereção visível, ele tentou esconder se trancando no banheiro, mas a porta do quarto estava aberta. Os dois pararam na porta, me olharam, se olharam e perguntaram com os olhos vermelhos e a língua enrolada. "Vocês transaram?", incomodada eu disse que não, Jordan, o mais velho perguntou por que. Eu disse que não queria. Eles riram e começaram a entrar no quarto. Pararam perto da cama e ele disse "Ele não é sexy, não é? Mas e eu? Eu sou?" ele disse isso levantando a camiseta e mostrando um abdome definido. Alice, a irmã, riu e disse "oh, você é muito sexy, aposto que ela não te rejeitaria". Eu nem consegui dizer alguma coisa, quando Matheus estava entrando no quarto, parou e viu tudo que estava acontecendo. Ele pediu para todos saírem e me deixarem em paz, mas os dois se recusaram, fechando a porta e a trancando pelo lado de dentro. Matheus gritava e esmurrava a porta. 

Jordan era maior e bem mais pesado que eu. Ele me segurou pelos pulsos quando eu tentei empurrar ele e me levantar, Alice também me segurou. Eles forçaram minha mão em seu pênis para "senti-lo duro". Foi quando eu percebi que estava em perigo com aqueles dois idiotas bêbados e chapados. Eles se irritaram com a minha cara de nojo, acho que eu poderia arrancar tudo ali e dar para os cães. Foi quando Alice me segurou, jogando o peso do seu corpo sob o meu, Jordan começou a tirar as calças, eu ainda podia ouvir Matheus batendo na porta. Eu vi o membro ereto do irmão do meu namorado enquanto ele começava a desabotoar meu jeans. 

Alice sussurrava coisas como "você vai gostar" e "relaxa, eu sei que é bom, já provei" e ainda "é bom perder com quem sabe o que faz". Eu gritei, pedi por ajuda para o Matheus e seus irmãos só diziam "Vamos dar a ela o que você não deu". Os murros na porta eram mais fortes. Parei de gritar por um instante, quando senti a pele de Jordan na minha, forçando a entrada. Ele segurava as minhas pernas e ria. Eu mal conseguia me mexer. Busquei no fundo da minha mente imagens de alegria, amor e prazer. Dos livros e do Matheus. Me calei. Recebi cada estocada calada. Os beijos, mãos e carícias nojentas não alcançavam meu ser que estava amortecido e escondido no fundo do meu ser. 

Quando Jordan acabou eu fiquei imóvel na cama. Olhando para o teto. Alice estava com o celular na mão. Havia filmado e fotografado. A porta se abriu e Matheus entrou com os olhos inchados e as mãos vermelhas. Ele chegou perto de mim, mas não deixei ele me tocar. Levantei e me vesti. Ouvia ele perguntar como eu estava e me abraçando enquanto chorava por ser incapaz de me defender. 

Eu o olhei e disse "Eu estou destruída, não sou mais a menina que você namorava, me tira daqui, é tudo que eu peço". Ele pegou minhas coisas e as suas e me levou pra casa. No mesmo dia contei para minha mãe, ela ficou horrorizada. Fizemos um B.O na delegacia. Passei pela mais humilhante situação da minha vida após o ocorrido. Os exames e afins não são nem um pouco acolhedores. Minha mãe me abraçava e segurava o choro. Matheus ficou a semana toda me ligando, seus irmãos, por serem menores receberam indiciações, mas não foram presos, os pais tiveram que pagar uma multa exorbitante. E eu, bem, eu caí na rede. Por alguns dias, mas foi o suficiente para não querer mais sair de casa. 

Terminei o ensino médio a distância. Li meus livros, comecei a cantar, fiz aulas também. Aos 19 anos passei para Serviço Social na Federal. Depois de anos com acompanhamento psicológico, reclusão e muito estudo de mim e do mundo resolvi tatuar uma frase um tanto sem sentido para as pessoas, mas com muito sentido para mim, Austen escreveu em sua obra Persuasão. "Sou metade agonia, metade esperança" envolta num mar de flores, gravadas no meu peito. Jurei nesse dia jamais deixar quem precisar de mim sozinha. Mulheres são fortes, mas como todo ser humano, são frágeis. 

Carregarei minha dor pelo resto da vida. Isso é inevitável. Carregarei também meu primeiro amor comigo. As vezes nos falamos. Ele faz Direito agora. Que coincidência não? Trabalharemos juntos de certa forma, como sempre trabalhamos, cada um com sua dor e suas metas. Mas, sou eu, eu Sabrina, a doce menina dos romances estrangeiros, que tem a força gravada no peito. 



Esse texto faz parte do desafio Imagem e Palavra do Interative-se!

4 comentários:

  1. que história pesada, Mu :C muitas moças já passaram por essa violência, e eu admiro bastante a força que elas tem para seguir à diante e se reconstruir. Às vezes, acho que passei por algo assim, pois de repente uns flashes aparecem em minha mente, mas acho que eu de algum jeito bloqueei as memórias, sabe? Prefiro deixá-las num baú mesmo.

    Com amor,
    Bruna Morgan

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    1. Eu sei que é pesado Bru, mas senti a necessidade de falar. Tanta ente já passou por isso, eu de certa forma também passei. Traumas ficam, são cicatrizes! Mas, a gente cresce!

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  2. Triste história, porém muito importante.

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    1. Verdade, são coisas que acontecem todos os dias com milhares de garotasem todo o mundo!

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